Da minha rua

Quando eu era criança, minha rua era de terra. Em períodos alternados, apresentava-se em dois estados extremos: pó e lama. Minha mãe ficou saturada de tanto organizar abaixo-assinados para que a rua fosse pavimentada. Criticava com veemência as falsas promessas dos políticos de então. Quando nos comícios pré-eleitorais eles apareciam, ela, para desespero do meu pai, ia defronte ao palanque e cobrava na lata “aqueles sem-vergonhas que só prometem”.

Lembro-me de quando o Dr. Pitico, que era amigo de infância do meu pai, foi depois de um comício tomar café na casa do Lilo (apelido do meu pai): recebeu uma verdadeira intimação da minha mãe, e, com aquele falar caipira, prometeu a pavimentação. Prometeu e cumpriu, não sem antes minha mãe cobrá-lo várias vezes. Lembro-me também de quando, atendendo a um pedido do meu pai, foi examinar-me por causa de uns caroços que apareceram na minha cabeça. Ele, com aquele sotaque pra lá de piracicabano: “Lilo, essa creança tá com mononucreose”. Nada a ver com aquela poeira miasmática que para minha mãe era a causa de todos os males.

Quando a poeira ficava insuportável, ela, com uma mangueira de água, molhava a rua para amenizar o pó e preservar aquelas roupas alvíssimas secando em varais sustentados por taquaras. Muitas vezes a tarefa de molhar a rua sobrava pra mim e meus primos. E, quanse sempre, o nosso desempenho resultava em confusão. É que, volta e meia, mangueirávamos os ônibus que por ali passavam. Eram em geral jardineiras antigsa que, além de passageiros, transportavam em cima do teto — bagageiro — toda sorte de coisas: malas, engradados com galinhas, cabritos, porcos e até pessoas.

E como nossas mangueiradas molhavam os passageiros, eles, com razão, gritavam palavrões, dos quais invariavelmente ouvíamos, como ecos e em volumes decrescentes, parte das sílabas finais. — uta, uta, uta — de um designativo sobejamente conhecido. Tempos depois dessas peripécias, aprendi que, na prática, vivenciávamos um exemplo de fenômeno que se chama efeito Doppler-Fizeau, por ter sido essa a dupla de cientistas responsável pelo detalhamento matemático sobre o comportamento de ondas sonoras quando a fonte emissora está em movimento.

Na época, a encrenca acontecia quanto a conte emissora parava. Muita gente descia para nos xingar e aquele “uta, uta” vinha em sua forma completa. Digamos, ironicamente, em sua forma castiça e com todas as sílabas. Nos dias chuvosos, a nossa diversão era ficar observando o pessoal que descia a rua de bicicleta rumo às fábricas têxteis e às oficinas da Sorocabana. Muitos derrapavam e deslizavam pelo barro, ficando desoladamente imundos. E nós rindo a valer.

Ver um tombo é uma coisa que em geral faz as pessoas rirem. Tanto isso é verdade que o sucesso das tais “videocassetadas” deve-se quase sempre a tombos grotescos. Em geral tragicômicos, como o daquele nosso atleta nas últimas Olimpíadas. Só com o tempo deixamos de rir em situações especiais, porque diplomaticamente aprendemos a conter o riso. Além das nossas molecagens, tenho daquele tempo uma lembrança recorrente e concernente à minha rua que me deixa meditativo — o Docicada. Ele era um negro alto e forte, na verdade imenso aos nossos olhos infantis.

Sempre passava pela rua com aquela calça pula-brejo de algodão cru, com um cordão à guisa de cinco e sem camisa. E com os olhos tristemente longínquos, ele repetia sem convicção e em tom nonocórdio: “jabuticaba adocicada”. E do seu mantra veio seu apelido: Docicada. Para ele a vida não foi nada adocicada. Com um carrinho de mão cheio de jabuticabas e uma lata para medir quantidades da fruta, ele, com aqueles pés descalços e enormes como pranchas, vinha de não sei de onde e ia não se sabe para onde. Parece que ele negociava com os fregueses somente através de monossilábicos olhares melancólicos. A imagem desse negro taciturno ficou-me impregnada como uma espécie de síntese da tragédia humana que foi a escravidão em nosso país.

Em contrapartida, tínhamos o Maravilha, outro negro passante rotineiro pela minha rua. O apelido advinha do fato de ele, para qualquer coisa, exclamar: “Maravilha”. e com um sorriso congelado em dentes brancos característicos dos negros, ele era um sebo ambulante de gibis. Vendia, comprava e trocava revistinhas. Carregava sob os braços, amarrados em cordas, pilhas de heróis e super-homens da nossa infância. O Docicada e o Maravilha foram símbolos das tristezas e alegrias da minha rua. Muitos deles ainda estão por aí — em todas as nossas ruas.

(⭐6/6/1946 | ➕1/7/2019)

Engenheiro civil graduado pela Poli-USP (1972), pós-graduado na área de Transportes, Adalberto Nascimento atuou como engenheiro, consultor e professor universitário.
Foi o associado n.º 1 da AEASMS, servidor municipal de carreira, ex-secretário de Edificações e Urbanismo (1983/88), de Transportes e presidente da Urbes (1993/96).
Escritor, autor de livros de crônicas e curiosidades matemáticas e membro da Academia Sorocabana de Letras. Além de publicados pelo jornal Cruzeiro do Sul, entre outros veículos, seus artigos ilustraram e continuam ilustrando o conteúdo deste site “Coluna do Dal e Desafio do Prof.º Dal”.

Notícias Relacionadas

Deixar uma resposta