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Inteligência Artificial amplia possibilidades para arquitetura e urbanismo

O arquiteto e professor associado da Florida Atlantic University, Daniel Bolojan, participou, em 28 de agosto, em Manaus (AM), do 1º workshop da Comissão de Ética e Disciplina do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CED-CAU/BR) sobre Inteligência Artificial, com foco na “Invisibilidade tecnológica e ferramentas de transformação: um ponto de inflexão na Arquitetura e Urbanismo”. No evento, Bolojan abordou o tema “Além da geração de imagens: repensando a inteligência artificial no processo projetual arquitetônico”.
Em entrevista ao Perspectiva CAU, Bolojan também destacou a emoção de ver profissionais da arquitetura se envolvendo com esse tema e fazendo perguntas. “Muitas vezes, quando conversamos com profissionais, eles tendem a se afastar da tecnologia, pensando: ‘Como isso se aplica a nós?’. E acabam não se envolvendo de fato. Foi ótimo ver pessoas que já têm anos de prática profissional, imagino, usando essas ferramentas e tentando descobrir como realmente pensar sobre elas e como trazê-las para a prática”, disse.

Confira, trechos da entrevista, a seguir:

Perspectiva CAU: o que muda quando a Inteligência Artificial (IA) passa a executar tarefas e não apenas responder a comandos?

Daniel Bolojan: Há certas tarefas e processos que a IA fará melhor do que nós. A questão é entender o que isso significa para nós, como arquitetos, e para o nosso papel profissional. Se olharmos para a história, ela é uma boa forma de pensar sobre como isso pode afetar o futuro. O que aconteceu quando passamos do desenho à mão para o CAD? Começamos, claro, a mudar algumas das coisas que fazemos como arquitetos, mas também abrimos novas possibilidades. O mesmo ocorreu com o design paramétrico. O tipo de arquitetura que fazíamos antes era limitado porque não tínhamos acesso a determinadas informações que o design paramétrico passou a oferecer. Então, substituímos algumas tarefas, mas abrimos novas perguntas e novos territórios para explorar. Com o design computacional e paramétrico, por exemplo, podemos analisar o envelope de um edifício, extrair informações sobre a quantidade de radiação solar que recebe e fazer com que o próprio projeto reaja a esses dados. Se seguirmos essa progressão, o que ocorrerá com a IA? Ela vai substituir determinadas tarefas, assim como outras tecnologias fizeram, mas o que ela vai abrir para nós? Acho que essa pergunta é mais interessante do que saber apenas o que será substituído. Vejo que, como arquitetos, poderemos operar em um nível muito mais alto de conceito e compreensão, pensando em como orquestrar diferentes sistemas arquitetônicos e trazê-los juntos. Com a Inteligência Artificial, podemos prever resultados e obter respostas muito rapidamente. Com a computação tradicional, uma simulação pode levar horas. Com a IA, podemos fazê-la em segundos. O que isso abre para nós? Podemos pensar na arquitetura e ter diferentes sistemas arquitetônicos simulados quase em tempo real.

Quais atividades de arquitetos e urbanistas podem ser realizadas com o apoio da IA?
Para mim, tudo o que envolve orquestração, simulação e análise pode ser apoiado pela IA, tanto na arquitetura quanto no planejamento urbano. Eu costumava trabalhar com arquitetos em um projeto de simulação baseada em agentes e o que tentávamos entender era como as pessoas interagem em um espaço e como o desenho desse espaço influencia essa interação. Isso é interessante porque, como arquitetos, projetamos assumindo como as pessoas vão usar um edifício.
Construímos o edifício e, anos depois, percebemos se os usuários realmente o utilizam da maneira como imaginávamos.
Agora, com a IA e tecnologias capazes de realizar simulações em tempo real, também podemos, em escala urbana, simular e entender como as pessoas vão se movimentar pelo espaço. Podemos simular diferentes aspectos ambientais em grande escala sem precisar de grandes recursos. Nesse sentido, a IA pode apoiar muito esse trabalho.
Se estamos falando da IA aplicada ao processo de arquitetura, ao design e ao planejamento urbano, acredito que ela vai nos permitir começar a abordar perguntas que antes não eram acessíveis. Muitas vezes, essas perguntas não são acessíveis por razões muito pragmáticas. É muito caro fazer determinado estudo e, por isso, ele não é realizado. Agora, como temos acesso a uma tecnologia muito mais barata, podemos fazer perguntas sobre planejamento urbano que antes talvez não fosse possível fazer. Acho que o mesmo acontece na arquitetura.

O que são sistemas de IA agentivos e como eles funcionam?

Podemos pensar em diferentes categorias. Quando falamos simplesmente em um modelo de IA, estamos nos referindo a um sistema treinado com dados anteriores. Quando fazemos uma pergunta, ele responde com base nessas informações. Em um nível mais avançado, temos um agente de IA. Ele também utiliza um modelo treinado com dados passados, mas tem acesso a ferramentas que podem ajudá-lo a resolver problemas que talvez não estejam presentes nos dados de treinamento. Isso permite expandir um pouco a capacidade do sistema e resolver problemas que não existiam necessariamente nos dados anteriores. Quando chegamos aos sistemas de IA agentivos, temos algo além do acesso a ferramentas. É um sistema capaz de lembrar informações, utilizar essa memória e também melhorar seu desempenho com base nas experiências e informações às quais foi exposto. Então, podemos pensar em um sistema agêntico como aquele que tem memória e é capaz de fazer mudanças e melhorar ao longo do tempo.

Como a autonomia desses sistemas pode afetar o trabalho dos arquitetos e urbanistas?

Como arquitetos, uma maneira de lidar com isso é ter mais domínio sobre a tecnologia e entender se a autonomia é realmente necessária para determinada tarefa. Deixar agentes trabalhando de forma autônoma no trabalho de arquitetos e planejadores urbanos provavelmente não é o melhor caminho. É mais importante aprender a trabalhar com esses novos sistemas. No passado, lidávamos com sistemas passivos, quase como sistemas especialistas, e havia uma espécie de colaboração entre o humano e a ferramenta. Agora, essas ferramentas podem ser autônomas e agir sozinhas quando recebem uma tarefa adequada. Como arquitetos e designers, precisamos descobrir como trabalhar com essas ferramentas. E a autonomia, por si só, não é suficiente. Precisamos definir objetivos claros e regras para que esses sistemas possam tomar ações de forma autônoma. Caso contrário, se simplesmente pedirmos que façam algo sozinhos, eles podem ficar girando em círculos.

Quem deve ser responsável pelas decisões tomadas com o uso de sistemas de IA?

O fato de estarmos usando sistemas avançados de IA não muda a responsabilidade. Ela continua sendo humana. Ainda é o ser humano que toma a decisão e determina se aquela é a direção correta ou não. É a pessoa que funciona quase como um sensor externo, capaz de compreender o mundo, e que então orienta o agente e não o contrário. No final, a decisão continua com os humanos. A diferença é que agora teremos esses agentes como parceiros, aos quais podemos pedir que procurem outras informações importantes para nos ajudar a tomar uma decisão. Fonte: CAU-BR.

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