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Estudo inédito revela desigualdades estruturais da profissão de Arquiteto e Urbanista

Uma mulher preta arquiteta e urbanista tem 91% menos chances de alcançar as faixas de renda média-alta da profissão do que um homem branco com perfil educacional equivalente no estado de São Paulo. O dado integra a pesquisa Diversidade na Arquitetura e Urbanismo no Estado de São Paulo, realizada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) por encomenda do Conselho de Arquietura e Urbanismo (CAU), de São Paulo, com metodologia mista: survey com 2.003 profissionais registrados no Conselho e cinco minigrupos focais com arquitetos, empregadores e representantes de entidades do setor.

Desigualdades construídas na formação

Profissionais pardos e pretos concluem a graduação significativamente mais tarde do que brancos: pardos têm cerca de cinco vezes mais chances de ter formado após 2011, dado compatível com o impacto das políticas de democratização do ensino superior. Os custos do curso, como maquetes, plotagens, softwares, deslocamentos e alimentação, foram descritos nos grupos focais como proibitivos para estudantes de menor renda.
A carga horária integral, combinada à necessidade de trabalhar para se manter, limitou o acesso a viagens técnicas, intercâmbios e cursos complementares valorizados no mercado. O ambiente acadêmico é descrito como racialmente homogêneo e hostil. Relatos nos grupos focais incluem presença de apenas um ou dois estudantes negros por turma, reprovações percebidas como motivadas por preconceito e ao menos um caso em que a mobilização estudantil resultou na exoneração de um docente após denúncia formal de racismo.

Redes e elitismo estruturam o acesso ao mercado

A inserção profissional depende fortemente de indicação pessoal. Empregadores descreveram como prioritária a contratação por redes de confiança previamente constituídas, favorecendo quem já circula nos círculos estabelecidos da profissão. A instituição de formação também opera como filtro: faculdades “tradicionais” são associadas a maior preparo técnico, mesmo sem evidência empírica que sustente essa generalização.
Para profissionais negros, o cenário se agrava pela discriminação nos próprios processos seletivos. Participantes dos grupos focais relataram casos em que recrutadores demonstraram surpresa ao constatar, na entrevista presencial, que a candidata qualificada era uma mulher negra. O canteiro de obras aparece como espaço de assédio sistemático: episódios de assédio sexual foram relatados espontaneamente por três participantes, todas havendo mudado de área de atuação após os incidentes.

Recomendações

A pesquisa conclui com agenda construída em cocriação com a Comissão de Políticas Afirmativas do CAU/SP (CPAF). As frentes prioritárias incluem: ampliar o acesso de estudantes negros ao mercado durante a graduação por meio de estágios com recorte afirmativo; revisar práticas de recrutamento dependentes de redes informais; fortalecer mecanismos de enfrentamento ao assédio e à discriminação; institucionalizar a agenda de diversidade no CAU-SP como política permanente. O estudo também recomenda transformações curriculares que incluam arquitetura africana e trajetórias de profissionais negros e indígenas historicamente invisibilizados.

Sobre a pesquisa

A pesquisa “Diversidade na Arquitetura e Urbanismo no Estado de São Paulo: desigualdades, barreiras e oportunidades para uma agenda de inclusão e equidade” foi realizada pelo Cebrap por encomenda do CAU-SP e da CPAF-CAU-SP, no âmbito do Programa de Ações Afirmativas aprovado em julho de 2024.
A coordenação quantitativa ficou a cargo de Victor Callil e Luiz Felipe dos Anjos. A Coordenação qualitativa foi de Monise Fernandes Picanço, Gabriela Trindade e Sabrina Guimarães, sob Coordenação geral de Tomás Wissenbach. Fonte: CAU-SP.

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