Coluna do Dal

De coisas cerebrais

A trepanação talvez seja uma das mais antigas práticas cirúrgicas da humanidade, anterior mesmo à invenção da escrita e da leitura. Ela consiste em fazer um furo de alguns milímetros no crânio.

Enigmaticamente, diversas culturas, sem conexão alguma entre si, fizeram uso da trepanação. Os estudiosos acreditam que ela era utilizada na suposição de curar dores de cabeça, epilepsia e loucura. Para os místicos serviria para a libertação de demônios, ou seria uma espécie de janela aberta aos deuses para conferir poderes mágicos ao paciente.

Na Antiguidade era realizada com uma pedra pontiaguda enquanto na Idade Média, no tratamento de loucos, era feita com uma espécie de arco de pua. Depois da feitura do furo, era mostrada ao paciente uma suposta pedra tirada de sua cabeça. É dessa prática que vem a expressão “louco de pedra”.

Por falar nisso, lembrei-me do nosso professor de Geografia, Egas Moniz de Balsemão, do tempo de ginásio. Ele parecia meio que de pedra. Não fazia a chamada de presença. Com um desenho esquemático da classe, ele determinava onde cada aluno deveria sentar.
No ritual da computação dos ausentes e, em seguida, mexendo cabalisticamente com livros, óculos e relógio, ele matava um tempão da aula. Quando falava, era sobre política. Apenas tangenciava o conteúdo do livro de Geografia. Marcava as provas dizendo que a matéria compreenderia os assuntos contidos até uma determinada página do livro.

Nos dias de prova, ele folheava o livro em busca das perguntas que faria. Quando ele se detinha numa dada página, eu, como sentava na primeira fileira, tentava descobrir, pelas figuras, qual página era.

Utilizando os dedos, eu indicava os números das páginas para um amigo do fundão. Este, sem mais nem menos, arrancava as respectivas páginas do seu livro. Depois de duas provas, percebi que o mestre perguntava sobre trechos relacionados com notas de rodapé.

Uma vez, no exame de meio de ano, ele retirou a minha folha de prova e a de um colega já falecido, por eu facilitar-lhe a cola das minhas respostas. Entrei em pânico. Se ele me desse zero, eu fatalmente seria reprovado. Como ele só fornecia as notas no final do ano, o segundo semestre foi angustioso.

Nos dias de aulas de Geografia, meu itinerário de volta para casa ficava bem mais longo. Eu dava uma passadinha no Mosteiro São Bento e pedia uma forcinha para São Judas Tadeu, santo de devoção da minha mãe. Acho que funcionou. Obtive nota 4.

Em geral, os papos com São Judas ocorriam em finais de tarde e eu ficava admirando os efeitos do sol poente nos belos vitrais e ouvindo sons de passarinhos nas árvores do jardim lateral à igreja. Isso ajudava amenizar a minha angústia.

Das minhas leituras, fiquei sabendo de outro Egas Moniz (1874-1955), médico português, que recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 1949, prêmio esse que, posteriormente, foi muito contestado. Na verdade, o nome desse cientista era Antônio Caetano de Abreu Freire, mas ele, por ser descendente de certo Egas Moniz (1080-1146) que fora tutor de Dom Afonso Henriques, exigia ser chamado de Antônio Egas Moniz. E assim ficou.

Egas Moniz, o médico, desenvolveu uma técnica radical para operação do cérebro, chamada leucotomia, que consistia em perfurar alguns orifícios na parte dianteira do crânio do paciente mentalmente doente e, com um instrumento que inventara chamado leucotomo – uma espécie de descaroçador – extrair um pedaço do núcleo central do cérebro de aproximadamente um centímetro de largura. Era, segundo ele, uma forma de acabar com os sintomas de ansiedade e a psicose.

O médico americano Walter Jackson Freeman II (1895-1972), adepto de Egas Moniz, desenvolveu seu próprio leucotomo – uma espécie de dois furadores de gelo interligados que permitia a ele fazer a “lobotomia transorbital”.

O procedimento consistia em marterlar (martelo de borracha) o aparelho, fazendo a penetração por detrás dos globos oculares (pelos condutos lacrimais) até o cérebro. O objetivo, através de movimentos no aparelho, era seccionar as conexões que ligam os lobos frontais ao tálamo.

Quando não morriam, as pessoas ficavam como zumbis. Ganancioso, Freeman realizou mais de 3.500 lobotomias. A mais famosa foi a que realizou em Rosemary Kennedy, irmã do presidente americano John Kennedy.

Rosemary possuia deficiência mental e o patriarca Joe Kennedy, achando isso inadmissível, procurou Freeman para que operasse a filha. Tudo foi feito no maior sigilo; nem a mãe da jovem ficou sabendo.

Sucede que ela transformou-se numa pessoa lenta, sem emoção e, tornando-se inválida, morreu internada numa instituição do estado de Wisconsin.

A leucotomia e a lobotomia deixaram de ser praticadas, mas a trepanação ainda é realizada em operações cerebrais. Com instrumentos modernos e por médicos supostamente competentes. Nenhum louco de pedra, é claro!

 

Adalberto Nascimento

Ex-secretário de Edificações e Urbanismo (1983/88), de Transportes e presidente da Urbes (1993/96), é engenheiro civil graduado pela Poli-USP (1972), pós-graduado na área de Transportes, atua como engenheiro, consultor e professor universitário.
Associado n.º 1 da AEASMS e servidor municipal aposentado, é escritor, autor de livros de crônicas e curiosidades matemáticas e membro da Academia Sorocabana de Letras. Escreve quinzenalmente neste espaço

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