O milagre e a mágica do vinho

Em plena vigência da Lei Seca, nos Estados Unidos, o famoso mágico Houdini (foto) transformava, para delírio das platéias, água em vinho. Além da transgressão, o truque, por sí só, era emblemático pelo intrínseco simbolismo nele contido. Segundo a Bíblia, o primeiro milagre de Cristo foi transformar seis jarros de água em vinho num casamento perto do mar da Galiléia. Ele também contou várias parábolas sobre o vinho e tinha o costume de fizer aos seus seguidores: “Sou a videira, vocês são os galhos”.

A oferenda na Última Ceia fez do vinho um dos protagonistas do principal ritual católico — a Eucaristia –, no qual o pão e o vinho simbolizam respectivamente, corpo e o sangue de Cristo. Na verdade, a Eucaristia envolve aspectos de alta complexidade, exigindo uma abordagem bem mais extensa do que esta, que optamos por apresentar de forma sucinta para não cometermos nenhuma leviandade.

De certa forma, os cristão deram uma nova roupagem aos rituais dos participantes dos cultos aos deuses do vinho — Dionísio para os gregos e Baco para os romanos. Uma roupagem bem mais comedida, pois nos cultos gregos (“symposion”) e romanos (“convivium”) o pessoal bebia vinho desbragadamente. Consta que essa bebida tem sua origem entre 9.000 e 4.000 a.C nas montanhas de Zagros, numa região que atualmente corresponde à Armênia e o norte do Irã.

A provável origem do vinho nessa região é reforçada pela história bíblica de Noé, que, depois do dilúvio, teria plantado uma videia nas encostas do monte Ararat. Vai ver que aí está a razão da longevidade de Noé, o segundo mais velho da história. Morreu com 950 anos, só perdendo para Matusalém, que viveu 990 anos.

Séculos depois dessa época, Houdini fazia suas peripécias realizando mágicas vinícolas, bem longe da Galiléia. Vamos contar um pouco sobre sua história. O húngaro Ehrich Weiss (1874-1926) migrou com a família para os Estados Unidos quando tinha 4 anos. De família pobre, trabalhou desde a infância exercendo várias profissões: perfurador de poços, fotógrafo, contorcionista, trapezista e ferreiro. Neste último ofício aprendeu a abrir cadeados e algemas com auxílio de pinças. A partir daí ele desenvolveu vários truques que o transformaram no maior mágico ilusionista do mundo.

Adotou, então, o nome artístico de Harry Houdini e teve uma vida de sucesso, na qual utilizou, além da habilidade em truques, a força física privilegiada de que era possuidor. Também era capaz de ficar vários minutos sem respirar, faculdade de que se valia para se libertar de correntes que o prendiam unidas por cadeados, em geral quando ele se encontrava encalacrado em recipientes imersos em água para tornar o seu desempenho, além de perigoso, mais emocionante.

Para fazer o “milagre do vinho”, Houdini valia-se do fato de o cloreto de ferro reagir com o ácido tânico, um composto extraído do carvalho, produzindo uma substância (um complexo de ferro-ácido tânico) de cor escura semelhante à do vinho tinto. Assim, ele jogava água numa taça contendo camufladamente aquelas substâncias e o “vinho” aparecia. E, bem longe do mar da Galiléia, Houdini sabia reverter o processo — transformava vinho em água. Ele sabia que o complexo ferro-ácido tânico é decomposto pelo ácido oxálico. Resumindo: colocando água numa taça com cloreto de ferro e ácido tânico, a água virava “vinho”; colocando o líquido resultante numa taça com ácido oxálico, o “vinho” virava água.
Quando ele fazia surgir o vinho, o pessoal ficava exultante. Todavia, alguém, de forma sorrateira, aparecia para informar que um fiscal do governo estava chegando. Então o Houdini, usando destreza e dissimulações, transformava o vinho em água para a platéia rir do “fiscal” aparvalhado. Houdini também sabia dos truques que falsos médiuns utilizavam para convencer seus clientes de que podiam se comunicar com o mundo dos espíritos.

O famoso ilusionista, por ser odiado por esses charlatões, dizia que os espíritos declarariam feriado no dia da sua morte. Houdini acabou morrendo de forma insólita. Depois de uma apresentação, um estudante de arte foi convidado ao camarim  para desenhar seu retrato. De repente, surgiu no recinto um estudante de teologia meio doidão que perguntou ao mágico se era verdade que ele podia resistir a qualquer golpe no abdomén. Houdini disse que sim e, subitamente, recebeu um tremendo golpe, sem que tivesse tempo de se preparar, contraindo a musculatura abdominal.

Ele era mágico: fazia a mágica do vinho, mas não era um adivinho. Jamais imaginaria que aquele futuro teólogo seria uma espécie de anjo da morte. Houdini era bom em mágicas, não em milagres. Durante duas semanas depois daquele soco, agonizou em consequência da ruptura do apêndice. E, de forma prosaica, morreu aquele que ainda hoje é considerado o maior mágico de todos os tempos.

 

(⭐6/6/1946 | ➕1/7/2019)

Engenheiro civil graduado pela Poli-USP (1972), pós-graduado na área de Transportes, Adalberto Nascimento atuou como engenheiro, consultor e professor universitário.
Foi o associado n.º 1 da AEASMS, servidor municipal de carreira, ex-secretário de Edificações e Urbanismo (1983/88), de Transportes e presidente da Urbes (1993/96).
Escritor, autor de livros de crônicas e curiosidades matemáticas e membro da Academia Sorocabana de Letras. Além de publicados pelo jornal Cruzeiro do Sul, entre outros veículos, seus artigos ilustraram e continuam ilustrando o conteúdo deste site “Coluna do Dal e Desafio do Prof.º Dal”.

 

 

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