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Tecnologia evita desperdicio e atraso em obra publica

Sylvio Mode, presidente da empresa de software de design Autodesk no Brasil, diz em entrevista na série UOL Líderes que as obras públicas tendem a ser muito mais econômicas e rápidas no Brasil, conforme a transformação digital avança no setor. Com sede nos Estados Unidos, a Autodesk fornece uma tecnologia de digitalização usada em projetos de construção em diversos países. Segundo Mode, com essa tecnologia, o desperdício em uma obra cai de até 40% para menos de 5%. “Você consegue precificar melhor, e consegue garantir que a obra termine no custo e no prazo. Permite muito mais transparência”, diz.

Além da engenharia, as soluções da Autodesk são usadas em efeitos especiais no cinema e no metaverso. Apesar das inúmeras possibilidades que o ambiente virtual do metaverso representa, o executivo diz que o usuário precisa ficar atento aos usos indevidos desta tecnologia, assim como acontece com a disseminação de mentiras nas redes sociais. “Investir para limpar esse conteúdo é um esforço válido, mas é um pouco como enxugar gelo”, diz.

Sylvio Mode fala também sobre como a tecnologia da Autodesk foi usada recentemente para digitalizar o acervo do Museu do Ipiranga, em São Paulo, e sobre os planos da empresa para o país. Leia a seguir trechos da entrevista:

UOL Líderes – Como funciona a tecnologia de vocês nas obras de engenharia? Ela ajuda a reduzir custos e riscos?

Sylvio Mode – Ajuda a reduzir riscos e custos, e eu diria que tem papel fundamental na sustentabilidade. Um terço do lixo do mundo é gerado pela construção civil. Quando você digitaliza um processo de construção, esse índice de desperdício, que hoje em média é de 30% a 40%, cai para menos de 5%. Hoje o mundo tem 7 bilhões de pessoas e 60% desse número vive em áreas urbanas. Até 2050 seremos 10 bilhões, e 70% vão viver em áreas urbanas. É fundamental que o processo de construção não apenas se intensifique, mas que ele seja mais limpo e inteligente.

É possível evitar custos adicionais e superfaturamento em obras públicas?

–Você acaba colocando uma série de sobrecustos em uma obra já prevendo que você vai ter uma série de imprevistos e atrasos. Obviamente isso é repassado no preço, e nós, contribuintes, pagamos por isso. Com a digitalização, a redução de desperdício é muito grande. Você consegue precificar melhor, e consegue garantir que a obra termine no custo e no prazo. Também dá muito mais transparência e visibilidade imediata se aquela obra está dentro ou fora do plano. Isso permite ações corretivas e evita desperdício, inclusive de dinheiro público.
Há alguns anos, foi assinado um decreto sugerindo que as obras públicas a serem contratadas pelo governo federal sigam essa metodologia. Isso vai ao encontro de decisões de igual teor tomadas por países muito mais desenvolvidos, como Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, onde o governo só contrata obra pública se ela vier dentro deste modelo digitalizado. Isso está acontecendo no Brasil de forma bastante crescente e a tendência é de continuar.

Vocês fizeram um trabalho recente de digitalização 3D no Museu do Ipiranga, em São Paulo. Como foi isso?

–A gente tem feito uma série de trabalhos no sentido de preservação e reconstrução de patrimônio histórico, e o Museu do Ipiranga é um deles. Fizemos isso também no Museu Imperial de Petrópolis. Nós ajudamos a desenvolver o modelo digital do museu, digitalizar todo o acervo para que ele possa ser visitado digitalmente, e ajudamos o governo do Estado em todo o processo de digitalização e controle da nova construção do museu. Fizemos também a modelagem digital para a reconstrução da Catedral de Notre-Dame, na França. Ela só pode ser reconstruída após o incêndio exatamente tal como era, nos mínimos detalhes, porque ela passou por um projeto como esse, de digitalização.

Como é a Autodesk Fundação
– 1982 Funcionários
– 12.600 Países onde atua
– Cerca de 150 países
Faturamento em 2021 – US$ 4,82 bilhões

Vocês também têm atuação no metaverso e no cinema. Como funcionam essas frentes?

–Hoje tudo o que você enxerga em uma tela de TV ou de cinema e que não existe de verdade, 99% de chance de que seja feito com tecnologia da Autodesk. Nos últimos 20 Oscars de efeitos especiais, não só os 20 ganhadores, mas os outros 60 competidores, competiram com cenas que foram integralmente geradas com tecnologia Autodesk. O metaverso é isso, é criar um mundo com o maior realismo possível, mas que não existe de verdade, e ali você vai interagir comercialmente. Para algumas coisas é extremamente útil, como ter uma experiência de compra online no varejo com um nível de realismo muito maior do que o website de uma loja. Mas eu particularmente não sei se é válido pagar uma fortuna por um terreno que não existe porque ele está ao lado do terreno que foi comprado pelo Leonardo Di Caprio. Eu não sei em que ponto isso vai estabilizar, mas certamente vai trazer benefícios.

 

Como desenvolver o metaverso e ao mesmo tempo evitar caminhos em que a mistura entre o que é real e o que não é real pode ser nociva, como no caso das fake news?

–Vai muito da consciência de quem usa a tecnologia. Ela está disponível e vai ser usada por pessoas mais e menos esclarecidas, não há muito como prevenir isso. É como o seu acesso à mídia social, ali tem coisas verdadeiras e não verdadeiras. Você investir para limpar esse conteúdo e garantir que, cada vez mais, ele seja mais real, com mais qualidade, é um esforço válido, que certamente vai passar para o metaverso também. Mas eu diria que é um pouco como enxugar gelo. Nenhum provedor de tecnologia sozinho consegue ter escala para frear. O volume de coisas que não têm qualidade é muito alto. Então cabe a cada um ter a consciência de, primeiro, saber que está navegando em um oceano onde informações falsas existem e, segundo, tomar suas próprias precauções antes de agir em função de um conteúdo que acabou de assimilar.

O que a Autodesk faz para ter um desenvolvimento do metaverso com responsabilidade?

— O que nós podemos fazer é cada vez mais garantir que os usuários dos nossos produtos tenham nome, sobrenome, e-mail, telefone. E, claro, sempre apoiando, por meio de mídia social, papers, artigos, o uso responsável da tecnologia. Agora, uma vez que essa tecnologia está contratada, a gente não tem como simplesmente escolher que tipo de utilização aquele usuário vai fazer da tecnologia. Ele pode construir um cenário de filme, um desenho animado, uma loja virtual, ou ele pode produzir mentira. Não há como uma empresa de tecnologia garantir que isso não vá acontecer.

Quais os planos da Autodesk no Brasil?

— A Autodesk basicamente tem investido nos três mercados. No mercado de engenharia e arquitetura crescemos 205% nos últimos cinco anos. Temos investido muito e capacitado gente. É importante dizer que toda a nossa tecnologia é gratuita para qualquer estudante de qualquer entidade de ensino filiada ao MEC. Devemos começar a investir mais pesadamente na área de manufatura a partir do ano que vem, porque nós apostamos não só que o Brasil, mas a América Latina também, tende a ser, pós-pandemia, uma região que vai ser vista por produtores de manufatura como uma região a ser considerada, e queremos nos preparar para isso. Em mídia e entretenimento também, nós entendemos e acreditamos que o brasileiro é, antes de tudo, extremamente criativo e esse vai ser um mercado de grande potencial de crescimento no Brasil. Temos com um grande cliente um projeto de capacitação de pessoas da comunidade. Isso porque, conforme você aumenta o uso de tecnologia para a criação de cenários digitais, você se depara com a falta de mão de obra capacitada. Acaba trazendo gente dos EUA e da Europa. Então por que não produzir aqui?

Fonte: UOL ECONOMIA

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