Coluna do Dal

Ultimus annus confusionis

Quem, como eu, foi universitário no final da década de 1960 ainda não deve saber qual foi o nosso “ultimus annus confusionis”, desde o golpe militar em 1964 até os dias de hoje.

Acho mesmo que nenhum brasileiro e de qualquer época sabe. Parece que todo ano vai ser “o último ano de confusão” em nosso país. E olha que não temos terremotos, tornados, furacões e outros tipos de catástrofes. Bastam-nos os nossos políticos. Haja vista o ano que passou! Bota confusionis nele.

O “ultimus annus confusionis” é como foi batizado pelos romanos o ano de 46 a.C. Mal sabiam eles que, vários séculos depois, boa parte de seus descendentes estaria nestas paragens e em eterna confusionis.

A confusão mesmo, no sentido original, ocorreu por causa da reforma do calendário promovida por Júlio César. O calendário romano inicialmente era lunar, com 304 dias divididos em dez meses, de março a dezembro. O ano, então, começava em primeiro de março.

Posteriormente, Numa Pompilius (715-673 a.C.) acrescentou mais dois meses – janeiro e fevereiro –, fez alterações e estabeleceu o ano com 354 dias. Mais adiante, Tarquinius Priscus (616-579 a.C.), por superstição aos números pares, deu um dia a mais a janeiro e o sistema passou a ser de um ano com 12 meses e 355 dias.

Em 46 a.C., Julio César, embevecido pelos atributos de Cleópatra e, como decorrência, influenciado pela cultura egípcia, promoveu a reforma do calendário romano auxiliado pelo astrônomo Alexandrino Sosígenes. Adotou-se então um calendário com 365,25 dias do ano solar (365 dias mais um quarto de um dia – os romanos tinham a mania de arredondar qualquer fração menor que a metade de um inteiro para um quarto). Com essa reforma as datas ficaram mais condizentes com as estações do ano. Estava consagrado o Calendário Juliano, que perdurou até 1582, quando se estabeleceu o Calendário Gregoriano.

É esse o atual calendário, com 365, 2425 dias do ano solar, e também com “confusionis” devido à supressão de 10 dias, pois ao dia 4 de outubro de 1582 sucedeu o dia 15 de outubro do mesmo ano.

De forma semelhante ao calendário atual, a diferença de 6 horas entre o ano solar e o ano civil adotado pelos romanos era ajustada de 4 em 4 anos, repetindo-se o dia 24 do mês de fevereiro, que na época tinha 29 dias. Esses anos de 366 dias chamam-se bissextos porque os romanos repetiam o dia 24 de fevereiro “bis VI antediem calendas martias”. Simplificadamente “bis VI”, ou “bissextum”. Daí a origem do ano bissexto – duas vezes o sexto dia antes do início de março – e não, como muita gente atribui, ao duplo seis em 366.

Novas alterações ocorreram. O começo do ano mudou de 1.º de março para 1.º de janeiro. Mudou-se também o nome do antigo quinto mês do ano, “quintilius”, para julho (Julius) em homenagem a Júlio César, e mais tarde o sexto mês, “sextilius”, passou para o que hoje é agosto (Augustus) em homenagem a Otávio César Augusto. Como julho tinha 31 dias, por razões políticas o mês de agosto passou a ter também 31 dias, com a diminuição de um dia de fevereiro, que ficou, em anos normais, com 28 dias.

Mas, antes de tudo isso, a enorme confusão aconteceu mesmo em 46 a.C. pelo fato também de se impor, por tradição, que o equinócio da primavera ocorresse no dia 25 de março. Para tanto, o dito cujo ano foi esticado até “intermináveis 445 dias”. Criou-se o maior “imbróglio” da paróquia. Daí aquela denominação latina de “confusionis” para esse ano.

Equinócio é a data em que o dia tem a mesma duração da noite. Ocorre um equinócio na primavera e outro no outono. Como curiosidade, temos também os solstícios – de verão, quando o dia é mais longo que a noite, e de inverno, quando a noite é mais longa.

Aquela esticada no ano pode ter sido, talvez, um jeitinho que Júlio César encontrou, sem envelhecer, para ficar mais tempo com a Cleópatra… Chi lo sa?

Imaginem, com as edificantes propagandas eleitorais, este nosso ano com 445 dias… Quem o suportaria?

 

Adalberto Nascimento

Ex-secretário de Edificações e Urbanismo (1983/88), de Transportes e presidente da Urbes (1993/96), é engenheiro civil graduado pela Poli-USP (1972), pós-graduado na área de Transportes, atua como engenheiro, consultor e professor universitário.

Associado n.º 1 da AEASMS e servidor municipal aposentado, é escritor, autor de livros de crônicas e curiosidades matemáticas e membro da Academia Sorocabana de Letras. Escreve quinzenalmente neste espaço

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