Coluna do Dal

Os destilados e a escravidão

No inverno de 1386, Carlos II de Navarra, governante de um pequeno reino situado onde hoje é o norte da Espanha, foi acometido de febre e paralisia. Ele, conhecido como “Carlos Mau”, era um rei que, além de devasso e pérfido, vivia atazanando seu sogro, o rei da França. Os médicos da realeza, sem os poderosos recursos da moderna medicina, resolveram curá-lo com o que então era considerado um remédio milagroso: a “acqua vitae”, que em latim significa água da vida.

O tratamento consistiu em envolvê-lo com lençóis encharcados com “acqua vitae”, na esperança de que aquela panacéia curasse a paralisia do soberano. Como isso ocorreu durante o período noturno, um criado descuidado com uma vela fez com que o rei morresse incendiado. Um prenúncio para muitos de que aquele ser cruel iria arder para sempre no inferno. Isso aconteceu porque a “acqua vitae” nada mais era do que um destilado do vinho, o conhaque, que, devido ao alto teor alcoólico, fora também batizado por um alquimista italiano como “acqua ardens” – água ardente, água que pega fogo.

A antiga técnica da destilação para vaporizar e depois condensar um líquido a fim de separar e purificar suas partes constituintes foi, no ano 800, aperfeiçoada pelos árabes. Eles criaram um tipo de destilaria denominada alambique. Essa palavra que tem jeitão de coisa de caipira é, na verdade, derivada do arábico “al-ambiq”, que, por sua vez, provém do termo grego “ambix”, vaso especial usado na destilação.

A “acqua vitae” foi, até algum tempo depois de sua descoberta, utilizada como remédio. O médico austríaco Van Schrick recomendava uma colher dessa bebida a cada manhã como profilaxia às doenças. Entretanto, o poder dela de embriagar rapidamente degenerou seu consumo para porres homéricos de muita gente, especialmente de habitantes de regiões frias. E muitos, com o mesmo objetivo de se encharcarem, também começaram a destilar cervejas para aumento do teor alcoólico. A expressão gaélica para “acqua vitae”, “uisge beatha”, é a origem da palavra “uísque”. Na Grã-Bretanha a “acqua vitae” era também chamada de “burnt wine”, vinho queimado, que em alemão virou “Branntwein”, retornando ao inglês como “brandywine” ou simplesmente “brandy”.

As bebidas destiladas foram úteis nas viagens marítimas de exploradores europeus e, sobretudo, na conquista da América. Além de diversão, elas eram menos suscetíveis às contaminações frequentes na água imunda transportada de forma inadequada nos navios daquela época. O lado mais perverso dessas bebidas foi o fato de elas também servirem de moeda de troca na escravidão de milhões de negros. Escravidão que contou com a condescendência dos cristãos (católicos e protestantes), pois, segundo alguns teólogos, os negros não se classificavam inteiramente como seres humanos.

A descoberta do rum em Barbados (ilha do Caribe) aumentou as conexões comerciais entre destilados, escravos e açúcar. O rum é feito a partir dos resíduos do processo de produção do açúcar. Na verdade, ele é obtido a partir da fermentação do melaço e sua posterior destilação. Essa bebida também era chamada de “mata-diabo” por ter altíssimos teores alcoólicos, às vezes bem superiores a 50%. Supõe-se que sua denominação resulta de uma simplificação de “rumbullion” ou “rumbustion”, gírias que os ingleses usavam para descrever os excessos provocados pelos bêbados. Uma espécie de “rumbolation” de brasileiros.

Embora muito consumido, o rum nem sempre era de agradável ingestão. Por isso, um almirante inglês teve a idéia de associar rum com açúcar e suco de limão. Inventou, digamos, a “caipirrum”. Como seu apelido era “velho gorgorão” (“old grog” em inglês) por ele sempre estar vestido com um casaco de gorgorão, aquela mistura acabou apelidada de “grog”. O tal almirante vivia grogue. Talvez por remorso de sacanear negros.

(⭐6/6/1946 | ➕1/7/2019)

Engenheiro civil graduado pela Poli-USP (1972), pós-graduado na área de Transportes, Adalberto Nascimento atuou como engenheiro, consultor e professor universitário.
Foi o associado n.º 1 da AEASMS, servidor municipal de carreira, ex-secretário de Edificações e Urbanismo (1983/88), de Transportes e presidente da Urbes (1993/96).
Escritor, autor de livros de crônicas e curiosidades matemáticas e membro da Academia Sorocabana de Letras. Além de publicados pelo jornal Cruzeiro do Sul, entre outros veículos, seus artigos ilustraram e continuam ilustrando o conteúdo deste site “Coluna do Dal e Desafio do Prof.º Dal”.

 

 

 

 

 

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