Defesa Civil Engenharia Segurança

Especialistas suspeitam de ausência de disjuntores no incêndio do Flamengo

Custo para instalar dispositivos em cada ar-condicionado do contêiner seria de no máximo R$ 400, diz engenheiro

 

O jornal O Globo consultou três especialistas em engenharia e prevenção de incêndio para tecer comentários a respeito de tudo que já se sabe a partir da perícia preliminar do desastre no alojamento do Flamengo no CT do Ninho do Urubu. Veja as opiniões deles.

 

Que importância têm os disjuntores na proteção da instalação elétrica e na prevenção de incêndios?

Telmo Brentano , professor aposentado da PUC-RS, especialista em engenharia de incêndio, autor de dois livros sobre proteção contra incêndio e membro da Associação de Proteção contra o Fogo dos Estados Unidos:
“Sempre que ocorre uma sobrecarga, algo que acontece sempre após uma interrupção e volta no fornecimento de energia, é preciso ter alguns elementos de segurança para evitar este choque no reinício. Seria preciso haver um aterramento bem feito e disjuntores. Estes permitiriam desarmar o circuito imediatamente. Talvez seja uma instalação improvisada, sem sistemas de segurança na parte elétrica. Seis disjuntores custam R$ 300, no máximo R$ 400.

Wesley Pinheiro , diretor do departamento de incêndio da Sociedade Brasileira de Engenharia de segurança:
“Deveria ter um projeto elétrico para aquela instalação prevendo quantos equipamentos, distribuição, voltagem etc e com fio, preferencialmente, antichama, já que se trata de um contêiner. É preciso um disjuntor para cada aparelho, mais um disjuntor no quadro. A gente sempre protege o equipamento para não alastrar. Se não tem disjuntor próximo a cada aparelho, o curto ia promover o fogo ate a caixa mais próxima. Se tivesse um disjuntor do lado do ar-condicionado, ia desarmar. São feitos para isso. Tem que estar preparado para desarmar. É um dispositivo de segurança. Não tinha disjuntor ali porque pegou fogo”

Antonio Eulálio Pedrosa Araújo , engenheiro civil e ex-conselheiro do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ):
“Cada aparelho de ar-condicionado precisa ter um fio de acordo com a sua potência e amperagem e um disjuntor. O que me parece é que o fio esquentou e pegou fogo. Como os aparelhos estavam em série, as chamas se propagaram. Se houvesse um disjuntor no ar-condicionado onde tudo começou, ele teria desarmado e cortado o fornecimento de energia, evitando, assim, a sobrecarga e a queima do aparelho. O custo de uma instalação elétrica adequada seria irrisório em relação aos altos investimentos que o clube fez em seu centro de treinamento”.

 

Saídas de emergência

Wesley : “Esse é um ponto que a segurança patrimonial esbarra com a segurança de incêndio. Certamente, as grades na janela são para evitar roubo etc Assim como terem pensado em uma porta só foi pensando na segurança patrimonial e não na contra incêndio. O ideal é não ter grades, ainda mais onde tem várias pessoas dormindo. Deveriam ter apresentado para o Corpo de Bombeiros para que eles dimensionassem o local, a quantidade e o tamanho. Um local como essa deveria ter, pelo menos, mais uma porta. Na hora da fuga, a gente calcula o volume do escoamento, chamamos de desocupação do local. É igual no cinema. Se for pequeno, tem uma porta dupla. Se for grande, podem ter duas, três, a porta aumenta, a sinalização aumenta e por aí vai.
Na hora da fuga, a gente calcula o volume do escoamento, chamamos de desocupação do local. É igual no cinema. Se for pequeno, tem uma porta dupla. Se for grande, podem ter duas, três, a porta aumenta, a sinalização aumenta e por aí vai.

Eulálio: “Como é que pode haver apenas uma porta! Deveria existir uma saída nos fundos. Além disso, janelas com grades, ausência de uma brigada de incêndio. São muitos erros num local só!”

Importância de treinamento para caso de incêndio

Telmo: “Incêndios sempre acontecem por fator humano, gestão, controle. O ideal ali era a existência de um detector de fumaça, que emitisse um ruído forte. Mas não bastaria, seria preciso um treinamento, uma orientação: quando se escutar o ruído, sair imediatamente, sem levar nada consigo. Fogo é igual ladrão: precisa correr logo para se safar, não se pode perder tempo. Após a execução de um projeto, o problema é a continuidade, porque a partir daí se faz adaptações, modifica-se o projeto original, muitas vezes sem a avaliação de um projetista. Neste caso, nem um projeto aprovado havia. A burocracia também exige longo tempo para aprovações, e termina-se por fazer as coisas assim mesmo.”

Wesley: “Existem dois tipos de brigada: a voluntária e a profissional. A voluntária são profissionais diversos treinados. Até os jogadores deveriam ser treinados. Se estavam lá a trabalho, tinha que ter conhecimento, independentemente da idade.”

A fumaça preta

Telmo: “A fumaça preta é típica de qualquer produto à base de petróleo. Isso indica colchões, sofás, travesseiros, tecidos… Originam uma fumaça intensamente preta. Em um incêndio, 80% das mortes são causadas pela inalação de gases e fumaça. Materiais de revestimento de ambientes assim devem proporcionar pouquíssima fumaça. Ocorre que há diversos tipos de material de poliuretano e, à distância, não é possível afirmar qual tipo havia no contêiner do Flamengo, se era o adequado. Na boate Kiss, por exemplo, era um poliuretano para isolamento acústico, mas não à prova de fumaça.

O material do contêiner pode ter contribuído para as chamas?

Eulálio: “Uma soma de fatores contribuíram para esta tragédia. A fumaça preta que se vê nas imagens pode ser um indício da queima de material tóxico. É costume, para abafar o barulho da chuva, usar uma manta de isolante térmico no telhado que contém este tipo de substância. Ainda há as paredes do revestimento que precisam ser analisadas. Os jovens, ao que tudo indica, morreram pela fumaça tóxica e depois tiveram seus corpos carbonizados. Não houve gritos, pedidos de socorro. Mas contêiner é provisório. Nem deveria ser usado como local de dormitório.”

Wesley: “Existem produtos retardantes para poliuretano, mas está na cara, pelas imagens, que não tinha. Porque abriu chama. Um produto aplicado com tratamento antichama, não abre chama. O poliuretano não é o material ideal porque é feito de lã de pet (reciclam garrafa pet e criam uma lã acústica para revestimento). Pet tem alta combustão. Os materiais ideais são a lã de rocha ou a lã de vidro (esta última a mais ideal). Ambas são mais resistentes ao calor.

Extintor de incêndio e sprinklers teriam feito diferença?

Wesley : “Como não tinha projeto de incêndio aprovado, eles poderiam ter extintor, como não poderiam. Logicamente, o evento foi muito rápido. O extintor nesse caso, já que queimou por dentro, era quase impossível apagar fogo com ele. A saída é abandono do local e isolamento da área. Pelas imagens dá para ver que tinha um abrigo com cilindro com gás inflamável perto, por sorte isso não explodiu. Sobre sprinklers, depende da edificação, depende da exigência do corpo de bombeiros. Se tivesse, minimizaria, claro. Mas não podemos dizer que são obrigatórios. Igual detectores, poderia ter de fumaça, alarme sonoro… Já que o Clube não tinha aprovação do corpo de bombeiro, era melhor ter investido em proteção. Isso vai ser transformado em processo criminal.”

Uma inspeção dos Bombeiros teria evitado o incêndio?
Telmo : “Eles não veriam estas questões. Verificariam outros aspectos, se as instalações estão de acordo com o projeto, na parte de extintores, mangueira… Verificariam a pressão e o acionamento das mangueiras.”

 

Fonte: O Globo
Texto: Carlos Eduardo Mansur, Leonardo Ribeiro e Vera Araújo
Foto: Reginaldo Pimenta / Agência Estado

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